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O Tempo existe, ou passa a existir então. Tempo difícil. Ele presencia nossas angústias da solidão. Tempo parado no pensamento sofrido. Possível, agora impossível. Retornamos. Voltamos atrás. O Tempo não passa, e o toque não existe mais.
Fomos avisados quando o Tempo ainda andava na calçada: comprando, passeando, trabalhando... Podíamos tocá-lo, cumprimentá-lo todos os dias como o porteiro na entrada. Não escolhemos morar no mesmo andar que ele, mas não tinha escolha. Era vizinho barulhento de dia, e à noite vivia batendo na nossa porta: pedia açúcar, sal e um abraço; às vezes, um colo.
Não tinha idade, mas era rápido, estava sempre com pressa, mal víamos ele sair pelo portão. O Tempo era sozinho, mas ainda tinha todos nós, mesmo quando exageramos nos pedidos. Pedi muito ao Tempo, e tudo ele me deu, só que no tempo dele. Sobrecarregamos o tempo que tínhamos antes e agora o Tempo não tem mais tempo de lidar com a gente.
Tanto pedimos e pouco doamos de nós mesmos. Não notamos quando ele não saiu mais de casa. Se trancou e não quis mais nem bom dia, estava cheio de apressarmos ele.
Se isolou do mundo, por achar que para nós não era mais nada. Não demos valor ao tempo que tínhamos com o Tempo. Era invisível, mas podíamos tocá-lo, quando o toque ainda existia e o Tempo ainda andava nas ruas, dava bom dia e sorria largo. Agora não, estamos cansados demais para apressar o Tempo e dizer pra ele se levantar e seguir. Não podemos fazer isso, o Tempo tem seu tempo, e nós tínhamos o nosso.

Thais Drigo
Capivari, 27/03/2020

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